Há sonho pairando no horizonte para lá do que vejo, para além do que imagino. Navega por céus nunca antes vislumbrados, nunca antes vistos. Está longe, tão longe como minha alma chamando o que sou.
Há sonho distante, profundo, viajando sem rumo à espera de mim.
Veio o vento e soprou tempo em casa que não era minha, teceu fios de saudade, embaraços, que me toldam o olhar porque tu já não moras aqui. Chegou a madrugada e acordou outro dia, outra história, outra fechadura de chave própria onde eu já não tenho morada.
São Lembranças, vestígios inscritos em minh' alma. Sensações, traços tatuadas em minha pele, Ecos, melodias pautadas em minha medula. É a música da tua impressão que me faz dançar neste rodopio lento de te amar com som.
Oferece-me flores, brancas, harmonia perfumada enlaçada nas tuas mãos. Simples, como meus balanceios desassossegados, seguros em teu corpo. Oferece-me flores, belas, como a música entoada ao ritmo da nossa private dance.
Faço o mundo com uma mão cheia de nada e outra vazia de tudo. Tenho na mão um punhado de alguém, flores de outras sementeiras, pedaços de outras partes. Floresço-me por entre dedos nascidos por aí, em raízes íntimas da natureza em germinação. Sou-me vida bravia, perdendo-me e achando-me na palma da mão, minha ou, talvez, não.
Há um sol que se põe, há um caminho que me aguarda, há um barco que me chama. Há praia perdida que me diz para ir, chamamento de luz em tempos que se esgotam. Há que meter pés ao caminho, entrouxar dúvidas, certezas e partir com coisanenhuma. Há alguém que me espera, em entardecer que me demora, pois se a vida é fugaz, breve no seu sopro e as marés se impacientam. Há que ir, encontrar rasto dessa invocação, perder-me e achar-me, em terras reservadas por onde me ouso, em busca do sol que se põe!
Na preguiça morna daquele abril soltaram-se sementes por terra solta como colheita prometida. Fui flor ao acaso em jardim de pai presente com mãe ao sabor do vento. Eis-me herdeira da avó margarida, desabrochada no regato do agrião naquela horta colorida, uma flor única, menina de viço inocente pois se os cuidados eram tamanhos. Daquelas sementes encontradas na primavera última, perdi-me em janeiro rasguei mundos, nasci e para sempre desassosseguei.
Adivinho água fresca no ribeiro que tropeçou em mim. Hesito na travessia, as pedras estão soltas, escorregadias, a desafiarem-me em chamamento ardiloso. Há um caminho, mais além, a vereda que devo escolher. Que faço? Pois se meus pés se calçaram no medo . . . de mim . . . do mundo.