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domingo, 17 de março de 2013

Estou triste . . .


Estou triste. 
A minha amiga Emilia (desculpa trocar-te o nome, mas também que interessa?) partiu..
Deixou este mundo, como o conhecemos. Tantas formas para simplesmente dizer que ... morreu.
Partilhámos vidas, sorrisos e confidências.
A vida na doença levou-a a isolar-se no conforto da família mais próxima. 
Construiu um muro...e eu respeitei. 
Talvez não quisesse mostrar-se na fragilidade, na dor, no sofrimento, na impotência duma batalha que, esperançada, julgava vencer.
Eu queira estar lá. 
Só concebo a amizade na partilha do bom e do menos bom.
Hoje, já não sei.
Eventualmente, em caso de doença minha talvez me isole e não queira partilhar as minhas dores.
De certa forma compreendo-a.
Mas, tenho saudades.
Gostava de a ter olhado uma vez mais, de lhe sentir a alegria contagiante que lhe era peculiar.
Nunca mais olharei no seu rosto ou ouvirei a sua voz.
Foi cremada, a seu pedido.
Estou triste.
Nada mais certo, para cada um de nós, esta realidade. 
Mais tarde ou mais cedo.
Para Emília...demasiado cedo.
Amiga, continuas bem viva em mim.
Lamento não ter sido mais...não estar presente...tu não o quiseste.
Não guardo mágoa, só tristeza porque não te posso ligar e ouvir.
Estou triste . . .


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Dizem . . .


Dizem-me...

"Que os dias se diluem
em derradeiros espasmos."

"O vento sopra  o amor . . . agarra-o!"

Dizem-me . . . os sentidos 
que me amas, 
não és fruto da minha loucura.

Dizem-me . . . e não acredito!

Dói-me a alma,
tenho feridas em chaga,
incapazes de sarar.
Porque acreditei-te, miragem desejada.
Grita meu peito teu nome,
som esfumado pelo distância.

Dizem-me . . . dizes-me . . .
Sou insana amante,
embaciada nas envoltas quimeras.
Sou ave de penas cortadas
definhando ao olhar o céu protetor.

Dizem-me . . . e que importa?

Deliberei a ventosa imunidade,
permito-me Ser
nos tumultuosos e sorridentes apeteceres.

Nesta hora . . . sou eu que digo : Basta!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Negro Profundo ( 19 )

A inesperada declaração emudece Samara. A sua tenacidade no estudo e na conquista da independência não lhe deixavam tempo para namoros. O casamento que recusara tinham-lhe deixado trauma.
Pura e simplesmente deixara de pensar em si como mulher completa onde o género masculino seria incluído.
Perante o olhar angustiado e expectante do amigo que lhe exigiam resposta, hesita.
Balbucia algo como uma justificação de nunca ter pensado no assunto. Assegura-lhe que o adora, mas desconhece se os sentimentos poderão ser de outro teor.
Afiança-lhe que se fosse obrigada a escolher ele seria, na certa a primeira opção.
Luís fica desiludido com a reação de Samara. A amizade deles sempre tinha sido especial e, pensara ele, evoluira da forma mais natural: para o amor.
Smara pede-lhe um tempo para se organizar. Muita coisa lhe tinha acontecido em tão pouco tempo. Suplica-lhe que tenha paciência com ela e acima de tudo que não se afaste.
Luís, um pouco envergonhado, desculpa-se e apenas lhe diz para levar o tempo que necessitar.
Regressam à casa principal e é altura de arrumar as roupas, os livros. No dia seguinte regressarão a Lisboa a fim de completarem o segundo semestre do terceiro ano.
Jantam na casa grande e reagem como habitualmente.
Fazem a viagem juntos e quando se despedem, sem que Luís se dê conta, Samara ao se aproximar dele oferece-lhe a boca em sinal de promessa.
E nas nuvens, regressam às suas residências com a esperança de futuro amoroso na bagagem.
(continua)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 16 )

Na actualidade, e com o romper do dia, as lembranças esvaneciam-se.
A dor da partida da mãe estrangulava-lhe a garganta. Aqueles últimos cinco anos tinham-na mudado. Conseguira estudar sempre com o apoio dos pais que a tinham adotado.
Estudava Medicina Dentária, concretização do sonho de criança.
Matilde enveredara pelas matérias da Biologia. João, gestor a finalizar o curso. Luís, que se tinha transformado no seu maior amigo e confidente, decidira ser médico de animais. Continuava a sonhar que iria salvar todos os seres vivos de maus tratos. O pequeno António, que se revelara um rapagão de ideias bem assentes, escolhera engenharia. Adora mecanismos, máquinas e desta forma saciava a sua curiosidade, estudando com prazer.
Matilde sentia-se bem apesar dos fantasmas da rejeição a assolarem de quando em vez.
A morte da mãe reavivava-lhe as assombrações.
A avó veio oferecer-lhe um chá quente. Samara, dormente da posição encaixada no corpo frio da mãe, desperta rápidamente.
Haviam chegado mais pessoas, o negro parecia a única cor existente.
Os homens trajavam integralmente o preto com o preto como adorno.
As mulheres escondiam-se nos seus lenços negros que lhes tapavam a cabeça descendo até à cintura.
Era o caso de Samara, respeitava os costumes e apresentava-se de negro profundo vestida.
O funeral seria dali a pouco.
Acariciando a gélida face da mãe, é depois desviada para o meio das outras mulheres.
O pai, Manolo, de sofrimento estampado no resto, recusa-se a olhá-la. Os seus irmãos solicitam-lhe atenção, de olhos ávidos.
Ainda vislumbra Gonçalo, já casado e com dois petizes pela mão.
Aurora, mulher experiente, avó amorosa convida-a a permanecer em silêncio para afastar distúrbios.
Samara cansada, tudo  cede. A dor experimentada não lhe ânimos para qualquer ação.
Apenas chora, lágrimas secas, dor lacinante.
No marasmo da insensibilidade, provocada pela tristeza, permite-se o embalo inconsciente  nas cerimónias costumeiras naquelas ocasiões.
(continua)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 13 )

Nada notando de estranho, apenas o habitual movimento que antecede a preparação da refeição, Samara dirige-se ao seu canto de estudo.
Uma mesa improvisada serve-lhe de escrivaninha. Acende a lamparina e prepara-se para fazer os deveres.
Sente uma presença aproximar-se. Engana-se, são duas: a de seu pai e a de Gonçalo, o noivo a quem estava prometida.
O coração acelera-se. O pai adianta-se e pede-lhe que se  dirija à zona de convívio.
Samara ajeita os cabelos encaracolados e escondendo a nervoseira veste um porte seguro, quase altivo.
Gonçalo, ao vê-la aproximar-se, fica arrebatado. Conhecia Samara desde criança, por várias ocasiões tinham estado juntos. Esta menina-mulher em que se transformara seduzia-o. Quando chegara a altura de escolher companheira para a vida não hesitara, imaginando-se únicamente com Samara.
Após os cumprimentos iniciais o pai pede-lhe explicações.
Samara, calmamente, mostra a sua posição, declarando-se demasiado nova para casar. Nada tendo contra Gonçalo, pelo contrário, achando-o um rapaz atraente e bem formado, gostava de continuar a estudar e deixar as ideias de casamento para mais tarde.
Sem interferir no diálogo dos jovens, Manolo segue atentamente a conversa.
O 'noivo rejeitado' entende as razões da menina.
Propõe um acordo. Visto ela ter apenas catorze anos, contra os dezasseis dele, adiariam dois anos, tempo em que haveria espaço para se conhecerem melhor e concretizarem o que se propunham.
À falta de melhor, Samara concorda com o diferimento.
Teria o aliado 'Tempo' como conselheiro.
Logo se veria.
(continua)

P.S. Peço desculpa às amigas(os) pela demora na publicação de novos capítulos desta 'novela' sem classificação. As tramas da realidade podem ser mais enleadas do que as  ficcionadas. De qualquer das formas, tenho como característica 'acabar obra iniciada'.
Nada prometo, vamos ver, como tão bem pensa Samara...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Frágil !


Na  delicadeza da complexidade reside a fragilidade.

Harmonia pouco estável,
mal seguro o equilibrio.

Dependências entrelaçadas,
condicionantes abraçadas.

Revelada existência do 'ser' em vislumbres débeis.
Subtil respiração em abraço vivo.
Escapa-se em em vaporosas nuvens do desconhecido.

domingo, 4 de novembro de 2012

Grito !

 
Não!
Não te vás!
Não me largues no teu cheiro, vazio de ti.
Não me prives da doçura dos teus lábios.
Não me abandones na baía gelada sem te ter como porto de abrigo.
Não me soltes a mão que imobiliza  sem o teu  toque.
Não pares de me olhar, norte de mim.
Não!
Não te vás!
Não desistas de inaudito amor, flor rara, insubstituível.
Não me desapropries do teu corpo, sustento imprescindivel.
Não!
Não te vás!
Não permitas que me perca em insustentável existência.
Não me ofereças  indiferença embrulhada em cortesia.
Não me recuses carinhos ansiados em gestos adivinhados.
Não!
Não te vás!
Não me tortures no silêncio, mergulho sufocante.
Não te afastes, levando-te.
Não me obrigues a calcorrear esta agonia que é a vida sem Ti.
Não!
Não te vás!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Carta (in)Conformada!


Cartas_large


Meu amor,

Porque te chamo ainda assim? A razão encontra-se na essência dos meus sentires.
Luto, revolto-me contra o que sinto, o que me dói.
No entanto: Amo-te.
Como ainda não encontrei um passe de mágica ou um truque para quebrar o feitiço da paixão, vou aguardando.
Espero que o sentimento se vá e com ele o padecimento.
Insurjo-me contra este tumultuoso pesar porque não comporta alegria, paz ou sequer sorrisos.
Demorei o meu tempo, porém já entendi.
Não correspondes às minhas ânsias, aos meus desejos e desta forma, resta-me conformar-me.
São vãos os esforços em tentativas de reclamar o que não se pode dar porque não se tem.
Não tens culpa.
Não se ama quem se quer.
Assim como eu ainda não consegui 'desamar-te' tu não o sentes pela positiva.
Um encontro desencontrado.
Não te culpo, mas tenho de confessar que desconsolada procuro a resignação.
Não te incomodarei mais.
Que encontres alguém digno do amor que cobiço.

Um beijo da que (ainda) te ama!


domingo, 8 de julho de 2012

Negro Profundo ( 12 )

O srº Teles, homem considerado na sua região, sobe ao cavalo e dirige-se ao acampamento, que acolhe todos os anos, herança de seu pai que o fizera jurar não quebrar tal tradição.
Sem tempo a perder, pergunta por Manolo. Este chama-o, com voz rouca, do fundo da tenda principal.
Conhecem-se desde sempre, mas nunca foram amigos. Sem rodeios, o pai de Matilde começa por explicar o seu respeito pelos usos e costumes, porém solicita que a vontade de Samara seja tida em conta.
Manolo, curtido pelas responsabilidades da vida, escuta-o com deferência. Contudo, mantém a sua posição. Visto já ter dado a sua palavra de pai e chefe em como Samara casaria com Gonçalo, não poderia voltar atrás. Seria uma desonra, para além da falta de consideração, para com o seu povo.
Replicando, Teles argumenta que Samara é uma menina especial, esperta nos estudos. Propõe uma solução de compromisso. Que deixe passar dois anos, pelo menos. Podia ser que, com dezasseis anos, Samara tivesse mudado de ideias e, entretanto, iria crescendo nos estudos. 
Contrariado, Manolo silencia-se, e em jeito de conclusão, diz que vai pensar.
Não totalmente satisfeito, Teles volta à casa principal, esperançoso num futuro de escolha para a pequena que considera filha.
À tardinha, o regresso ansioso das meninas, traz uma Samara dividida, perdida nos seus pensamentos e conjecturas.
Antes de regressar ao acampamento procura o pai de Matilde. Este conta-lhe do diálogo que tivera com o seu pai. Pode-lhe calma e confiança. Se acreditar, tudo correrá bem, assegura-lhe. Samara, um tudo nada mais descansada, despede-se com um 'até amanhã' e dirige-se a casa.
(continua)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Negro Profundo ( 11 )

Sim! Conhecia estas tradições de casamentos arranjados em tenras idades. Nunca se tinha apercebido, verdadeiramente, que a sua amiga fazia parte dessas tradições.
Olhos negros, quase pretos, os de Samara, pareciam-lhe, na manhã que despontava, ainda mais vivos, pela tristeza que se liam neles.
Samara, desnorteada, começava a reagir. Uma coisa tinha a certeza: não queria o casamento, pelo menos por agora. Até simpatizava com o noivo. Porém, nunca lhe ocorrera tais negociações nas suas costas de menina-mulher.
Encetaram um diálogo de mata/esfola e resolvem pedir a opinião adulta dos pais de Matilde.
Dirigem-se ao quarto dos proprietários da Herdade que já se encontram a pé. Pasmados, com as madrugadoras meninas, ficam em cuidados, querendo saber o que se passa.
Precipitam-se na narração, atrapalham-se nas palavras e não conseguem ser entendidas.
O pai de Matilde, com a calma que os anos lhe tinha trazido, pega nas meninas, pela mão, senta-as na 'chaise-longue' do quarto  e pede-lhes que lhe contem tudo, desde o início, devagar, uma de cada vez.
Matilde olha de forma compremetedora para Samara. Esta toma folêgo e começa a narração das decisões tomadas pelos progenitores que conduziram às suas.
O casal, entendendo o drama de Samara, nem se mostraram surpreendido. Encontravam-se ao corrente  destes hábitos, dos casamentos precoces e sem aprovação ou conhecimento dos envolvidos. As amigas, ao verem a reação tranquila dos adultos, indignam-se e reclamam uma qualquer ação.
O pai de Matilde, O srº Teles, homem ponderado e conhecedor da vida, promete a fala com Manolo, pai de  Samara.
Como as horas do início das aulas se aproximava, ordenaram às meninas que se preparassem. Havia o pequeno almoço a ser tomado e depressa, o Srº Tavares as levaria, de seguida, à escola secundária que frequentavam, no nono ano.
Contrariadas, mas sem alternativa, fizeram o que lhes tinha sido determinado.
(continua)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Negro Profundo ( 10 )

Samara não percebeu à primeira. Todos a rodeavam, dando-lhe os parabéns. Felicitavam-na. Tinha sido disputada entre dois pretendentes. Ganhara o mais abastado. Que sorte a dela! Catorze anos e já noiva, quase casada. A família não podia estar mais feliz. 
A pequena sentou-se, atordoada. Levou tempo a digerir a informação, no intervalo dos beijos e abraços.
Quando deu cor de si, levanta-se e dirige-se  ao pai dizendo que é muito nova, não quer casar. Tão simples: quer continuar a estudar e deixar o casamento, talvez, para mais tarde. O pai não entendendo a filha, embriagado pelos festejos, despede-se, dando-lhe ordens para se deitar. De manhã teria tempo para se aconselhar com as mulheres da família. Que procurasse apoio na irmã mais velha.
Sob o efeito do transe, foi conduzida à sua cama, no meio de vivas e palmas.
Não se lembrava de ter adormecido ou acordado.
Recordava-se de se ter levantado com o Sol e dirigiu-se à casa principal das Mimosas.
Entrou pela porta da cozinha, como era hábito e dirigiu-se ao quarto de Matilde. Ainda era cedo para a escola, Matilde acorda mal humorada. Quando vê a amiga pergunta se está atrasada.
Desde os seis anos que Samara a acompanha todos os dias à escola, tendo aproveitamento em todas as matérias. No Outono recuperava as lições que havia perdido na última primavera. Desta forma, Samara não ficava atrás da inteligente amiga.
Sem deixar Matilde  levantar-se, Samara atira-lhe com um 'vou-me casar' que fez cair Matilde nas almofadas, de surpresa.
Matilde, não acreditando, começa  a rir e a acusá-la 'porque me acordas com parvoíces? Podia estar a dormir!'.
O silêncio de Samara traz Matilde à realidade.
(continua)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Negro Profundo ( 8 )

A noite já ía alta, perdera a noção do tempo. Os lamentos, espaçados, fizeram-na voltar ao presente. Doía-lhe o corpo da posição em que se mantivera nas últimas horas. O combustível tinha acabado nas lâmparinas sem vida. O ambiente ainda era mais tétrico  do que se lembrara.
As pessoas presentes, identificava-as pelos vultos. Eram-lhe familiares. Apenas a avó Aurora lhe dirigira a palavra, mostrando carinho, até.
Faltava muito tempo para o funeral.
Acomoda-se, sente os olhos pesados, doridos, a arder, consequência de tanta lágrima derramada. Ensaia um abandono ao colocar sua cabeça perto do ventre inerte de sua mãe. Vencida pelo cansaço, dormita e flashes do passado atormentam-na. Volta à Herdade, aos seus catorze anos.
Esse dia tinha-lhe sido especial. Na reunião diária dos 'Cinco das Mimosas', João partilhara a descoberta da Lírica Camoniana. Temporão, as hormonas já lhe tinham despertado instintos adultos. Na aula de português as palavras de Camões tinham-lhe falado ao coração e nunca estivera tão atento a uma lição.
Enquanto declamava " Amor é um fogo que arde sem se ver", na penumbra da adega onde se refugiaram nessa noite de Fevereiro, o irmão, Luís absorvia cada sílaba bem como Samara. Apenas Matilde e o pequeno António se encontravam distraídos na caça a uma família de aranhas que teimava em não se desalojar.
Luís olhava Samara duma forma nova enquanto o mano entoava as palavras "...É querer estar preso...".
Os frémitos que sentia, não os sabia explicar. Seria o poema do grande poeta? Seriam os olhos de  Luís? Não se percebia. Já tinha lido muito sobre a adolescência, mas não associou. Estava demasiado envolvida.
(continua)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Negro Profundo ( 5 )

As primeiras lembranças remontavam ao nascimento do seu irmãozinho, Igor. Tinha quatro anos. Proibida de entrar na tenda, ouvia os gritos da parturiente até que uma amostra de bébé lhe foi apresentada como membro da família. A pele avermelhada, as caretas inumanas, tinham-na impressionado. Recusara o convite de lhe pegar ao colo e refugiara-se na árvore centenária da herdade onde acampavam todos os finais de verão até por alturas do regresso do bom tempo.
Perdia-se nas brumas da memória coletiva o ínicio de tal tradição.
A Herdade das Mimosas dispensava, todos os anos, amplo prado, na zona de um monte, com casario em ruínas, onde se chamava lar durante meses. Preferia este lugar ao mais a norte, onde eram acolhidos nos meses mais quentes.
É verdade que as sombras, em maior número que tornavam suave o calor estival, o curso de água, cristalino e abundante,  fonte de intermináveis brincadeiras, eram uma escolha sensata.
Mas, para Samara nada se comparava à extensão, sem fim, da paisagem alentejana. 
A preferência da menina, contudo, prendia-se, mais, com as amizades que travara com a filha dos proprietários da Herdade, Matilde, de idade próxima da sua, e com os filhos dos caseiros.
Os pais permitiam-lhe o acesso à escola durante a permanência por terras de Mimosa e Samara tirava proveito dos livros emprestados pela sua grande amiga. Com eles aprendera a ler, a saber de outras vidas, a conhecer animais exóticos e até a saborear palavras, sem sentido, das poesias,  que declamavam com encenados jeitos teatrais, no meio de vacas que as olhavam com indiferença.
(continua)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Negro Profundo ( 4 )

Palavras sussuradas em tom de reza, começam a ser-lhe audíveis. Como de um sono profundo se tratasse, a consciência, pouco a pouco, despertava.
Do estéril 'nada' a memória, salvando-a, aflorava-lhe a identidade. Os cheiros, verdadeiras impressões digitais da sua infância, despertavam-na.
Deitada na casa que a vira nascer e crescer. As lamparinas piscavam a dar-lhe as boas vindas. A coberta que tinha sobre si, costurada, a pensar no seu projecto de pessoa, pela mãe, de ventre pesado, afastada de lides mais exigentes, ostentava o grande 'S'. Um enigma por decifrar: como sua mãe soubera que uma menina nasceria, a quem ser posto o nome de Samara?
Os cuidados médicos reservavam-se para os quase mortos. Quando tudo o resto tinha falhado. Gravidez não é doença. Para quê médicos? Era assim que pensava seu pai e assim lhe obedeciam.
A pouca distância, na cama de seus pais, podia vislumbrar o vulto inerte, rodeado de velas. Aos pés encontravam-se algumas mulheres, cobertas de preto da fronte até aos pés ocultos pelas negras saias, carpindo, em surdina.
Levanta-se e, apesar das tonturas, não hesita, dirige-se à cabeceira de sua mãe. Esta nunca mais lhe escovaria os longos e negros cabelos ao embalados pelas cantorias que não a deixavam quieta. Como era doce e timbrada a voz da mãe.
Enquanto lhe beijava a testa, um misto de saudade e impotência, relembrava-a como sua amiga dentro das limitações a que estava sujeita. No entanto, tinha quebrado umas quantas vezes regras 'sagradas' por amor àquela filha princesa no seu coração de progenitora.
O choro corria livre. Dava graças por lhe terem permitido entrar. No momento, bastava-lhe ficar ali, esquecida no tempo, de si, visitando o passado e deixando que a voz da dor se fizesse ouvir. A infelicidade, a perda eram dores insuportáveis.
Refugiava-se no passado ao agarrar a mão fria que a afagara inúmeras vezes...
(continua)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Negro Profundo ( 3 )

À medida que se aproximava do oásis de luzes, ouvia, cada vez mais distintamente, os lamentos, os choros entrecortados com silêncios que se anteviam tristes, depressivos. A fogueira centrava a família alargada a que se tinham juntado familiares mais distantes.
Conhecia-os todos pelo nome. Trajavam negro, sinal da escuridão em seus corações, originada pelo sofrimento da perda. Exceção feita aos mais pequenos, apontamentos coloridos, que já dormitavam nos colos de suas mães ou espalhados pelo amparo dos irmãos mais velhos.
Os olhos voltaram-se para ela à medida que a luz o permitia. Instalado o silêncio embaraçoso, com as mãos torcendo o lenço, apenas conseguiu gemer uma boa noite. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A vontade ordenava-lhe que corresse dali,  se refugiasse no lar acolhedor que a aguardava. Não podia! Teria de se munir de todas as suas forças e enfrentar os factos. Não lhe poderia fugir. Não desta vez.
O tio-avô, Valter,  pela autoridade que lhe dava a sua idade, questiona-a, humilhando-a - 'Que queres daqui? Já não pertences a esta família. Vai-te daqui, não és bem vinda! És uma estranha e só à familia é permitido chorar a morta'.
Samara de boa vontade teria dado meia volta, mas os sentimentos falavam-lhe mais alto.
'Não venho semear guerras, muito menos incomodar-vos. Quero, tão somente despedir-me de minha mãe e poder chorar a sua morte, perto dela'- dispara duma vez a menina mulher, endurecida no lombo da vida que costumava cavalgar. 
Ambiente que se espessou com o diálogo repleto de raivas, de incompreensões, de ódios, de raivas.
Insistiu, aproveitando o silêncio sepulcral: 'Só quero chorar minha mãe', soluçava compulsivamente. Um redopio de pensamentos não a largavam e sentia-se desfalecer. Tentou manter a postura e aguardar um sinal de recetividade. O corpo pregou-lhe a partida e acabou por cair, tendo as folhas já amareladas por colchão. Desmaiou, causando consternação, principalmente no flanco feminino. A sua tia avó, Aurora, mulher de muitos invernos, toma a iniciativa, grita que lhe cheguem a água e aproxima-se de Samara inconsciente.
Com o insólito da situação, ninguém se move, quais estátuas paradas no tempo. Aurora faz vencer a sua autoridade, dá nova ordem de 'água' e logo aparecem vários tipos de recipientes com o liquido.
(continua)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Negro Profundo - 1 -

As lágrimas teimavam em ficar presas no mar em que se transformaram os seus olhos negros. Semicerrando as pálpebras, sentia aquele molhado que teimava em não vazar.
Levou as mãos aos cantos dos olhos e as gotas salgadas soltaram-se, livremente, escorrendo pela sua cara de mulher menina. Era jovem, muito jovem, contudo os sinais das vicissitudes dos revés da vida tinham-lhe marcado a face, com expressão de indiferença.
As contrariedades, tão suas conhecidas. Demasiado íntimas. Desejaria que pelo menos um dos seus sonhos se concretizasse. Já tinha perdido a esperança. Debatia-se num quotidiano, escolhido por si, que não a satisfazia. Um aprovação seria um alento necessário, mas tardava em vir. Já se conformara, há coisas que, pura e simplesmente, não controlamos. Logo, não poderemos contar com elas no dia a dia. Uma lição de vida aprendida desde tenra idade. Sempre tinha sido assim! Porém, sombras de esperança e vislumbres de outras realidades ainda a assombravam.
A sua dimensão fantasiosa, chama ardendo, com pavio curto e azeite no fundo do recipiente, a ser consumido nas suas últimas gotas. Já não tinha recursos para voltar a encher nova candeia de ilusões. Recusava-se, conformando-se num incómodo que teria de fazer amigo.
O barulho dos seus chinelos, no passeio deserto, ecoava nas suas entranhas e relembrava-lhe a infância.
Voltara a vestir as saias compridas, e por obrigação das circunstâncias, tapava os seus longos cabelos, entraçados, com um lenço fúnebre que lhe chegava à cintura de mulher. 
De negro eram as suas vestes,  a tradição assim regulamentava. Dum negrume de fazer inveja às noites mais sombrias, mesmo as de Lua Nova. Estas ainda se alegravam com as estrelas distantes. Nela, o único brilho provinha do seu olhar...
Contemplando  a noite fria, apressava o passo, a dor servia-lhe de motor e as recordações de companhia, na jornada.
(continua)

Fantasmas...

Com o decorrer da vida vamos passando por situações, encontrando e conhecendo pessoas, percorrendo um caminho, mais ou menos, escolhido. 
Cada história sendo única, irrepetível, torna-nos especiais.
Como em todas as coisas, ser exclusivo tem o verso da medalha.
Seja em que fase da vida estejamos, há sempre acontecimentos que nos podem condicionar o futuro.
O mais gravoso são os pensamentos e as atitudes em que permitimos à culpa tomar conta de nós.
Castradora, auto-infligida, não há pior castigo ou julgamento.
Podemos ser (e somos, frequentemente) os nossos piores carrascos.
É como se, ao passarmos pela vida, déssemos boleia a fantasmas que, pela sua invisibilidade material, açambarcam o nosso eu, tornando-se em convidados indesejáveis, desmerecedores e permanentes. Contudo, não são passíveis de serem despejados numa qualquer estação ou apeadeiro.
Quantas vezes sacrificamos a nossa unicidade em prol da educação, do que fomos ensinados a considerar correto.
A nossa obrigação primeira deveria ser para nós próprios, a vida em si.
Existir e fazer parte da maravilha que é o Universo, em todas as suas dimensões, deveria chegar.
Mas, nunca é suficiente...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

ÀS VEZES...COM MEDO...

Deixo os Classificados cantarem o meu sentir:
"Às vezes é tarde demais, para seguir em frente.
Às vezes é cedo demais, para voltar atrás.
O tempo também é inverso, à nossa vontade.
E às tantas o que nos atrai, já não é verdade.

Porque é fácil não estar no lugar marcado,
E é tão fácil seguir o caminho errado.
Às vezes eu não salto com medo de voar,
Às vezes eu não sonho, com medo de acordar.

Às vezes eu não canto, com medo de me ouvir,
Às vezes eu entendo, que é apenas um momento,
e o melhor há-de vir."

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Desapego

O nada! O desapego!
Assustam-me! Sempre me agarrei a alguém, a alguma ideia, a qualquer sonho, a um objectivo que clamavam por mim. Persegui sonhos, tomei decisões em nome do ''Tudo' que fazia sentido. Melhor, fazia parecer.
Renunciar pode implicar dor e os nossos sentidos dizem-nos para fugir dela.
E se preciso do desapego, da sua prática para me encontrar?
Sinto urgência em ir mais além do que tenho tentado preservar com tanto esforço.
A noção de que o que tenho, o que sou, o que penso que me define, não chega.
Tu não me completas, o teu amor não me sacia. Necessito de ir além de ti.
As respostas talvez se encontram na insignificância, na fragilidade, na carência, na fraqueza, na vulnerabilidade do meu ser, que é nada.
As tuas respostas não as posso tomar como minhas, não me elevam, não são propicias ao meu crescimento.
No desapego preciso de começar, de novo, de experiêncais e soluções simples. Do nada quero partir . O Tudo não é meta.
As exigências toldem-me os movimentos e os pensamentos. Recuso-as, dou preferência ao nada.
Tem de existir razões, mesmo insignificantes, que lembrem o 'Eu'.
Recomeçar é preciso!
Preciso para viver...


terça-feira, 10 de abril de 2012

Despedida

 
COMO TE DIZER ADEUS SE:
  • As tuas mãos ainda se fazem sentir nas minhas?
  • O morno dos teus lábios ainda não arrefeceu?
  • As tuas palavras ecoam no meu ser?
  • A tua sensatez venceu a minha ilusão?
  • Os teus olhos ainda procuram os meus?
  • A tua presença é palpável?
  • A tua respiração se prende na minha?
  • Os teus desejos encontram casa em mim?
  • O teu coração ainda se encontra à minha guarda?
  • O teu equilibrio balança nos pratos da promessa?
  • Os teus dedos me continuam a seduzir?
  • A tua boca, única, me toma o fôlego?
  • O teu 'agora' é o meu 'hoje'?
  • O teu jeito me desconcerta?
  • És o meu sonho perfeito?
  • A tua desenvoltura me arrebata?
  • O teu corpo quente se refresca nas minhas fontes frescas?
  • O teu pensamento vem, sem autorização, encontrar-se com o meu?
  • A tua baía é a minha praia?
  • O teu 'eu' despertou-me do sonambulismo?
  • Tu existes em mim?