terça-feira, 11 de julho de 2017

semeio



Semeio, 
as heranças
do Sol e da Lua,
de letras,
que existiam antes de mim
em páginas brancas
seduzidas
pela passagem do tempo.

Solto,
por entre dedos,
coisas minhas,
escolhidas
sem saber como,
sementes legadas
de outros,
do mundo
e,
com elas,
escrevo minha vida,
história
de páginas
nem sempre legíveis.

Semeio-me em cada instante,
nasço e recomeço
nas linhas
e entrelinhas
do que sinto,
do que escrevo
com a pena do coração.


segunda-feira, 26 de junho de 2017

no limite



lá fora 
sopra uma brisa
paciente
como a esperar por mim,
chama-me
em sussurro
de desafio,
sem promessa
ou contrato por assinar.

está lá,
existe,
para além 
do que sou,
para além 
do que sinto.

chama-me
o desconhecido,
diz meu nome
sem pressas
porque
sabe de meu vazio
de eu estar aqui
na busca incerta
de outros ares,
de outro mundo,
de outros 'eus'.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

(des)caminho


Deixa-me curvar
nesses caminhos
que são teus limites,
desculpas no teu seio,
regaço só meu.

Permite-me desbravar
esse jardim
desabrochado no desejo
a perder de vista
pois se me cegas
com tua pele
colada à minha.

Desculpa-me o rasgo
que te abro e fecho
em ritmo só nosso,
descaminho perfumado
em sinuosidades perfumadas
aqui e ali.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Que te posso eu dar?

Que te posso eu dar?

Apenas uma mão cheia de mim,
vida de raízes sem chão,
terra onde me semeio,
floresço
e desvaneço.


Somente uma caricia de saudade,
de outros tempos
por onde ervas 
se derramaram,
ocultando as pétalas
que te perfumaram
em minhas mãos.

Que te posso eu dar?

Tão só uma insanidade
de te querer,
vontade de matar minha
sede de ti
nesta espera muda
do teu toque,
do teu beijo,
qual seiva
correndo no meu corpo
em ânsias de saciar o teu.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

casa fechada


Veio o vento 
e soprou
tempo 
em casa
que não era minha,
teceu
fios de saudade,
embaraços,
que me toldam o olhar
porque tu
já não moras aqui.

Chegou a madrugada
e acordou
outro dia,
outra história,
outra fechadura
de chave própria
onde eu
já não tenho morada.

domingo, 28 de maio de 2017

Quando



Quando tu me apertas
com teu querer
toda eu sou pele,
esqueço-me de respirar
dissolvo-me no gemido quente.
de teu corpo,
chamando-me ainda mais
como se as mãos,
o abraço 
fossem pouco.

Quando me procuras
e eu já estou em ti
permito deixar de me ser
dissolvendo diferenças
em elevação de um todo
onde eu e tu 
sobramos em prazer
fazendo vida
na agitação doce
de mares sem praia,
de barcos sem bandeira.

Quando tu me beijas
sem decência
toda eu sou capricho,
desalinho completo
sem inicio ou fim
apenas
o instante da eternidade
do desejo sem freio,
de amor
para lá do carnal.

Quando me sussurras
tuas vontades
já as havia lido 
no teu olhar,
sentido em minha essência,
pois se somos
a plenitude de
nós dois,
apetite saciado
em harmonia
de ganas e abundância
de ti,
de mim,
de nós.


terça-feira, 23 de maio de 2017

em e com 'maio'


Ofereceste-me um jardim,
eu só queria uma flor,
um raio de sol
do verão imenso
que é teu calor.

Deixa-me o pequenino,
o amarelo das pétalas
húmidas
pelo orvalho da manhã,
a tua pele nua
e salgada 
depois de seres meu
e eu
sem noção de quem sou.

Deixa-me o teu perfume
por entre primaveras
com mãos pequenas
onde o despercebido 
basta
ao ser tudo.



terça-feira, 16 de maio de 2017

soltando-me


Aqui,
neste final de tarde,
escoam-se os últimos raios de sol,
escorrem estrelas
no horizonte
para lá  do olhar.

E é neste lusco-fusco
que se destapam
as vontades  sem dono,
os desejos alados.

Agora é o tempo
de soltar ternuras
e  amores proibidos,
deixá-los voar
com a aragem do sol por,
respirar
e deixar-me ser.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Na procura

Não me procures em meus pensamentos,
tampouco em minha roupa,
e ainda menos em sonhos 
adornados das minhas vontades.

Não me chames pelo nome,
pelo eco da minha passagem
ou por mim.


Pois não  sabes
que habito no teu âmago (?)
vagueio em teus poros
acariciando-te a pele
em beijos húmidos
que soltas na respiração (?)

Desperta, 
amor meu,
atenta-te ao sopro
que te arrepia,
às miragens do adormecer,
à luz que te arranca das sombras.

Sou eu,
a que mais te quer,
mesmo assim..

Gritas-me e
desconheces-me
quando 
eu
estou,
apenas,
em ti.

sábado, 13 de maio de 2017

Sou-me


Sou-me no amarelo do Sol,
no cinzento da estrada,
na terra castanha
que me alimenta.

Sou-me cor
em mundo desbotado,
no limiar de cinzentos escondidos,
tropeços
que me fazem sangrar
como pétalas caídas.

Sou-me sozinha,
em trilho meu,
buscando a luz,
persistindo em dúvidas
e crenças da possibilidade de tudo,
até de mim.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

No 28


A preto e branco,
ou talvez,
no reflexo de cinzentos
viajo no 28
cerrando os olhos,
balançando nos carris,
sem desvio,
por onde é suposto ir.

São-me viagens obliteradas
na pele estendida
ao sol 
e à chuva 
do tempo.

O 28, 
na sua Lisboa,
é pedaço de mim,
de cores  e sensações
presentes,
tatuagem linda.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

mundo meu



Em meu mundo
cabem desejos por inventar,
quereres de um sopro só,
fronteiras sem linha,
limites a serem superados.

Nele estás tu,
amor meu,
povoando minhas planícies,
banhando-te em meus rios,
navegando em oceanos de mim.

És a vastidão do sentir,
a chuva de olhares
em horizontes
para lá das cores
e tons com cheiro a longe.


Em meu mundo
sou-me entre toques,
corpos
e pele
onde o tudo
és tu
em eternidades
e excessos a que me permito
e atrevo.

terça-feira, 18 de abril de 2017

escondendo-me


coube numa caixa escura
o meu medo,
a minha alma
cortada pelas nesgas de luz
insistentes no chamamento
de outro eu.

confinei-me em espaço escasso,
pequenez definida,
no receio de outras dimensões,
da vastidão do mundo,
de flores por desabrochar
e mares por navegar.

Sabotei vontades,
quereres, desejos
e sonhos
sabendo da minha dor,
perdida algures por aí,
em mim, talvez.

domingo, 2 de abril de 2017

cristalinas


Bastam-me invernos e frios,
ventos e chuvas,
cinzentos e sombras.

Que venham azuis,
brancos e outras mais.

Quero Luz!
Quero Sol!

Cobiçam-me águas cristalinas,
puras,
límpidas no brilho
de tempos mornos
desapressados
no momento único
do instante,
já,
agora.

sábado, 1 de abril de 2017

Desjejum


Apetece-me barrar-te
de cima a baixo,
por todos os lados,
como torrada de amor.

A noite foi longa,
vazia de ti,
horas onde se forjaram
fomes e apetites 
por entre sonhos e lençóis.

Desperto no desjejum
de te abocanhar,
trincar,
 sem tréguas ou dietas
onde saboreio cada migalha tua
em satisfação
de resgatar o gozo
na quietação da carência.

Lambuzo manteigas,
doces,
 e não sei que mais.
pela manhã,
na alvorada
do teu coração.

quinta-feira, 30 de março de 2017

na pele


Pele nua,
despida de outras mãos,
de outra pele
com que se consumir.

Regaço exposto,
aberto a outro colo,
a outro peito
com que se adornar.

Mulher viva,
de respiração breve,
de palpitação em espera
com que se despertar.

Loucura minha,
a dessa pele,
a desse regaço,
ao me ocultar
em véu de pérolas,
de tamanhos desiguais,
como desassossegos
pertinentes
no processo de me ser.

Disfarçada a crueza
da pele,
ânsias e vontades
de coisas minhas,
saltam à vista
floreados,
enfeites tecidos
na dor
de um corpo
adornado com pérolas.

segunda-feira, 20 de março de 2017

desculpas


Cansam-me as desculpas,
estas fendas iluminadas
a que me agarro
sem saber 
da porta de acesso.

Excluída de vontade
salto lapsos,
intervalos de mim,
que sei
serem únicos
ao ficarem trancados
nesta insanidade
a que chamam vida.

Sem chave ou fechadura,
quedo-me em voltas,
círculos angulosos,
na procura de algo,
nem compreendo o que é.

Angustio-me
na canseira de existir,
perguntas sem resposta,
vontade sem tempo,
desejo sem rumo.

Transbordo-me,
no vazio
imenso do sentir
minha dor,
fechada na imobilidade
da espera
por onde as desculpas
se chovem,
como chaves esquecidas
dependuradas em minha mão.

sexta-feira, 17 de março de 2017

do pó



O pó paira no momento,
suspenso,
em fio passado
nos bordados da vida,
tecendo névoa
que importa esquecer.

Deposita-se em minha mão,
nas palavras que escrevo,
nas emoções de agora,
desviando-se 
de sentires envelhecidos,
coisas da memória,
esculturas em desuso,
meros testemunhos
de outros tempos.

Neste instante,
carrego o peso desse pó,
observo-o,
analiso-o,
de nada me vale,
de nada me serve.

Em inspiração natural,
solto o sopro,
suave,
de outros ares,
deixando o (re)início vir,
transparente na honestidade,
de outra possibilidade,
de me ver,
de me ser,
desempoeiradamente.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Ensaio para uma menina


Tem essa miúda
pequena
de vida desconhecida,
caminho pela frente
embaciado 
pelo desejo
de tanto.

Garota com 
medos desnecessários,
oprimida em si
sem saber 
da dimensão do mundo,
da vastidão dela.

Que se quebre
a redoma
e a pequena se abra 
ao universo!

Tem essa criança 
dento de mim,
em espera,
da escolha de me ser.

Haja alguém
a sussurrar-lhe 
da importância
da gota no oceano,
da areia na praia,
do amor que só ela é,
sem temores ou vacilações,

Sê-te, miúda,
em liberdade,
em ação,
solta pensamentos
e sente
o sol
e o vento
cá de fora
onde habitam 
sombras a vencer.

Atreve-te!
Permite-te!

São preciosas 
a sujidade,
as dores e quedas
sem proteção,
no amparo da tua força,
determinação que nem sonhas ter.

Tem essa miúda
na hesitação
de se fazer ao mar,
pois tem...




segunda-feira, 13 de março de 2017

diálogo meu



Insistes,
teimas na tua razão.

Olhas-me e vês
outra qualquer.

Eu não sou
o que tua mente quer,
o que teu coração deseja.

Continuas a mastigar 
os pensamentos
como se fosse bolo alimentar
e me pudesses processar
no teu sistema,
à tua forma,
do teu jeito.

Pois bem,
meu menino,
apenas sei que não sou reflexo de nada
e,
muito menos,
de ti.

Nasci sem espelho, 
paredes
ou imitações.

Rasguei a existência
por entre dores,
demandas,
sofrimentos só meus.

Sorvi o prazer
de me ser companhia,
adivinhar intuições
e sentires sem dono.
Só meus.

Bebi da vida
orvalhos,
tempestades que ninguém deu conta.

Perdi-me e achei-me
vezes sem conta
em labirinto por montar
como peça por encaixar.

Basta!

Pisa a terra o quanto 
te der na  gana,
enfatiza-te até ao último
abismo do planeta,
permanece em ti,
só tu sabes 
o quanto tens de te ser autêntico.

Eu floresço
em cor e cheiro de flor,
inclinada para o sol
privilegiada no veludo
de me ser.

Começo a viver
de pétalas abertas
dispensando teu calor,
tua presença,
teu tudo.

Agora sou só eu . . .


sempre há


Há um mundo
a convidar,
tímido,
sem conversas,
existindo,
em coloridos
que chamam,
nas formas
à espera de serem moldadas,
no coração,
soltando horizontes,
descobertas
logo ali,
despidas de fronteiras ou limites,
e tu,
cego
nas coisas do mundo.

Olhas-te
nas sombras do cinzento
troçando do convite
como se não te fosse ele
a passagem do umbral
para te seres em plenitude.

Há pó,
terra,
chão,
mares
e cores.

Atreve-te!
Sê!
Vai!

quarta-feira, 8 de março de 2017

nascente


As algas banham-se
por entre rios
desaguados
neste mar
de olhos meus.

Revolvem-se lágrimas
na espuma
desta inquietação
que não quero minha
nem de outro qualquer.

Solto-me aos ventos,
grito às tempestades,
chamo a acalmia
de outros horizontes,
outras planícies despidas de regatos
e oceanos com nascente em mim.


segunda-feira, 6 de março de 2017

madrugando


Aguardo o orvalho
da madrugada 
do teu despertar,
a preguiça lenta
do teu corpo
a acordar.

É húmida 
a minha espera,
o meu voo
sobre ti,
leve e doce
como a aurora.

Cuido o sono teu
em meu sonho
de te beijar,
outra vez,
no silêncio
de carícias devolvidas.

É fresco
o meu desejo,
a minha cara lavada,
polvilhada,
em chuviscos quentes
de te querer.

domingo, 5 de março de 2017

ensaio para as profundezas



É de dentro
que as marés
se enchem
com ternura tua.

Agigantas-te
em profundezas
cristalinas,
luminosas
como só o teu jeito sabe ser.

E bem lá do fundo
soltas tempestades,
contornos de ilusão
do que és,
do que sentes,
lá,
na tua essência.

É alto,
grande,
o amor oculto
com recantos 
de acessos imperceptíveis,
escadarias 
a convidar 
para tua casa
por entre a maresia
e gaivotas 
que te são vigias,
guardas,
do oceano
em que te és,
da enseada 
em que me esperas.

É do insondável,
em que o mar recua,
em que o mar vem,
que se descobre
a mansidão
da carícia doce
nos silêncios
da tua profundeza.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

de mim

Sou dona 
das águas,
de rios
e oceanos
onde te desaguas
de mansinho.

Sou rainha
de paralelos,
hemisférios
e litorais
de cada coordenada tua.

Sou baía
serena,
confluência de leitos,
encontro do teu mar,
da minha torrente,
ribeira a transbordar
em dias
de chuvas eternas.

Sou pérola
guardada
em profundezas
subtis,
abismo sem fim,
em que mergulhas
sem me ver.


Sou corpo imerso,
afogo na sede
de te receber.