I-
O piso gelado e escorregadio das telhas não o demovia.
Ele era um Gato da noite. Vadio, assanhado, em cio ininterrupto. O apelo das fêmeas dominava-o. Um comportamento que nem dava conta. Julgava-se um verdadeiro macho, conhecedor das artes da conquista. O ronronar, a sedução não lhe escondiam segredos; pensava o Gatão, senhor de si. Pronto a entrar em qualquer luta para atingir o almejado troféu. As arranhadelas, as feridas saradas ao longo dos anos era um preço irrisório pelo prazer obtido. Nestes passeio noturnos as temperaturas desconfortáveis ou a chuva impiedosa não constituam qualquer obstáculo. Os seus inimigos eram, tão somente, as recusas das gatas que procurava.
O gato tinha sempre o dia para recuperar das aventuras inimagináveis, mas que ele teimava em contar com acrescentos fantasiosos.
II-
O crepitar da lareira amolecia-a. O calor aconchegante inundavam-na de preguiça.
Ela era uma Gata dócil, caseira. De satisfação fácil, contentava-se nos afagos ocasionais, em encontros fortuitos. Raramente os procurava. Sentia-se feliz na pacatez da existência.
III-
Com a noites a levantarem-se mais tade, a Gata saiu pelo entardecer. Os últimos raios de Sol do dia provocavam reflexos coloridos nas plantas do jardim. Nunca se aventurava para além do território conhecido. De quando em vez, passavam desconhecidos que, com a conversa, se podiam converter em amigos.
IV-
O gato iniciara a sua ronda noturna mais cedo. Pretendia explorar novos terrenos, aventurar-se. Ainda nos muros baixos, por entre o casario, viu-a.
Chamou-lhe a atenção como prazenteiramente se rebolava sob a luz. As hormonas eriçaram-se bem como os pelos e permitiu que uma onda de calor o invadisse.
Desceu ao nível dela, no solo. Assustada com a aparição apenas o olhou nos olhos. Leu-lhe o desejo e não lhe ficou indiferente.
A noite espreguiçava-se com os seus braços abrangentes.
Convidou-a a subir ao telhado para verem o nascer da Lua.
A Gata tinha o astro como sua amiga, principalmente quando estava cheia e inundava o seu recanto de alva paz, em forma de luminosidade.
Subiram ao topo da casa e ficaram observando o movimento impercetível da senhora Lua.
Convergiam as forças naturais e conspirava o Universo para que a noite fosse passada no céu. Saciados e já com o Sol a nascer, a Gata convidou-o a aninhar-se entre paredes.
V-
O Gato, enlouquecido no entusiasmo que permanecia, acedeu.
Ela entrou em casa e através da janela, convida-o a entrar, fazer-se seu.
Silêncio e quietude.
De olhos húmidos a Gata percebeu.
Aquele não era o seu Gato. Ela ambicionava mais do que instantes. Queria tudo.
O Gato recolheu-se à vida diurna, sem ferimentos ensaguentados como era hábito, mas descobriu o sabor agridoce da impotência. Não ser capaz de mudar porque assim o determinara e decidira. Prosseguiu o seu caminho guiado pelos instintos básicos. Sem amor.