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sábado, 18 de junho de 2022

orvalho



Nasce a manhã,
em aveludado começo,
promessa de um Mundo,
em vida orvalhada,
qual frescura tenra,
prenhe de flores,
sementes 
e da tua pele.

E esse Novo 
transborda de vigor,
pois 
se tua pele é corpo,
por explorar,
acabado de nascer
no orvalho.

Vem,
meu querido,
aninha-te em mim,
colhe a minha
 sede e fome de ti.

Deixa,
meu amor,
que o orvalho
seja nosso amigo,
confidente,
nesta madrugada
onde te nasces
e eu te amo.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Triste



Com os músculos doridos a reclamarem, despertou. O  passeio forçado prolongara-se no tempo bem como  o sentimento torturado da rejeição que a asfixiava. 

Ainda não percebera o que lhe doía mais, a sua credulidade ou o desamor alheio. Estava irritada, furiosa, consigo, com o mundo e principalmente com Ele. 

Bem, as prioridades estavam trocadas. 
A bem da verdade, Ela era a principal responsável. 
Nos outros não tinha controle e só lhe restava a opção de aceitar ou optar por qualquer outro tipo de relação, inclusive a indiferença.

Deixou-se levar pelo trilho de madeira enquanto o cansaço aguardava pelo tempo. Desanimada, parou no final do pontão e absorveu aquele fim de tarde. 
Como se fosse a última inspiração!

A baía perfumada de maresia convidava-a a juntar-se-lhe. Banhar-se de tal forma que a limpeza lhe levasse as tristezas.

Descalçou-se e ao sentar-se os pés foram acariciados pelo veludo gélido do mar. O arrepio veio de imediato e fê-la esquecer-se, por instantes, da mágoa tatuada em si. Uma marca que transportaria para sempre. Cicatriz ainda em chaga, arrependimento sem volta.

À dor insuportável respondeu com um arrancar de vestido.
Mergulhou e deixou de sentir . . . penas amorosas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Patrícia - ( 3 )

A Patrícia aguarda o seguimento da sua história.
Apesar dos atrasos, não gosto de coisas inacabadas, pelo menos das narrações vividas na minha mente, aqui prosseguem as peripécias da mulher a quem os acontecimentos ultrapassam vontades e planos.


Patrícia imobilizou-se na surpresa e petrificou por momentos. A presença inesperada roubou-lhe palavras e ações. A amiga beslicou-lhe o braço e fê-la regressar a terra. 
'- Hã?' - foi a única sílaba que lhe saiu da boca entreaberta.
'- Pode dar-me o prazer de conhecer o seu nome?' - insistiu o homem moreno.
'- Desculpe, estava distraída' - desculpou-se Patrícia, de forma atabalhoada.
'- Sou a Patrícia'.
Miguel pegou na mão de Patty e conduziu-a à pista de dança. A 'Salsa' convidava ao ondular de corpos insinuantes. 
Ao princípio, retraída, Patrícia sentia os olhares curiosos e estupefactos das amigas de noitada.
'Quem diria!' - era o pensamento resumido de todas elas.
Porém, o sorriso contagiante do par inusitado transmitia-lhe confiança e à vontade. 
Deixou-se seduzir pela música, mergulhou naquele mar azul dos olhos e a música tornou-se cúmplice de algo inexplicável.
As músicas sucediam-se bem como os ritmos e as sensações.
Miguel mostrara-se um dançarino meigo e muito atento. Um verdadeiro cavalheiro apesar da ousadia inicial.
Já cansados recolhem-se a uma mesa mal iluminada onde Miguel se desculpa pelo atrevimento. Justifica o atrevimento no impulso incontrolável que sentira ao olhá-la de longe. 
'- Tu chamaste-me!'- brincava ele.
Patrícia perdera a racionalidade que lhe era peculiar. Emoções desconhecidas faziam-na vibrar e começava a duvidar das suas certezas.
Com o trabalho completamente esquecido, somente aquela presença desinibida e afável lhe prendia a atenção.
'Seria amor à primeira vista?' - Era pergunta na cabeça de ambos.
A atração era visível e quase palpável. O desejo subia de tom tornando-se impaciente. 
Miguel brincava com o cabelo de Patrícia as conversas desfilavam sem tino. Como adolescentes, deixavam o prazer da companhia mútua crescer e no momento eram felizes.
Entretanto, as amigas de Patrícia resolveram continuar a sua volta pelos locais nocturnos já programados e despediram-se da amiga que se  'encontrava em boas mãos' conforme brincaram. Patty ainda mencionou o facto do acordo e o dever das acompanhar. Meros resquícios de consciência.
Estava claro que o mulherio aprovava o encontro inesperado e fazia questão que Patrícia se divertisse.
O homem do veleiro, pegou nas mãos e com uma seriedade desconhecida pergunta-lhe se ela gostaria de conhecer a sua pequena casa flutuante.
O olhar respondeu-lhe.
De mãos dadas caminharam em direção da madeira que cintilava no reflexo da Lua.
O mar, esse libertava o seu cheiro a algas, e baloiçava, suavemente, aguardando os amantes apaixonados que ainda não o sabiam.

( Fim )


domingo, 29 de setembro de 2013

As meias !



As nuvens corriam velozes lá fora. 
Ouvia o vento a baloiçar os ramos que desesperavam a segurar as folhas que avermelharam. 
Eram filhas que partiam demasiado cedo. 
Todos os anos a mãe natureza fazia o seu luto na invernia que se aproximava. 
O Sol perdera o ardor e sorria tímido por entre correrias de gotículas que se amontoavam. 
Talvez acabassem por lutar e caíssem sobre a forma de chuva esperada.
Como era energia desperdiçada o desejar outro clima, resolveu adaptar-se às circunstâncias.
O telefonema deixara-a apressada. 
O encontro inesperado era-lhe apetecido.
 Sem perder tempo, o duche percorrera-lhe o corpo tenso. 
O hidratante mal espalhado perfumava o ar. 
Em poucos minutos o cabelo tinha sido domado e a pele adquirira tons mais saudáveis. 
O tom bronzing ficava-lhe bem. 
De olhos escurecidos e lábios brilhantes restava-lhe vestir-se. 
Já sem a simplicidade do tempo mais quente.
A lingerie servia de base às camadas que começavam a tornar-se necessárias.
Como sempre, as unhas estavam tratadas e em tons vermelho paixão. 
Pura sorte! 
As meias pretas foram retiradas da embalagem e delicadamente sorriu ao envolver o pé e a perna duma negritude sensual. 
Antecipava o momento em que ele lhas arrancaria sem pudor e com pressas amorosas.
Para lhes prolongar a vida . . . calçou-as demoradamente.

***********

De seguida, enfiou as peças de roupa num ápice e voou para os braços dele que a recebeu com beijo despido.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Arte



Segundo o dicionário 'priberam', Arte pode ser:


arte 
(latim ars, artis, maneira de ser ou agir, conduta, habilidade, ciência, talento, ofício) 

s. f.
1. Preceitos para fazer ou dizer como é devido.
2. Livro de tais preceitos.
3. [Figurado]  Modo; artifício.
4. Habilidade.
5. Ofício.
6. Manha, astúcia.
7. [Técnica]  Aparelho de pesca (ex.: arte de xávega).
8. [Brasil, Informal]  Travessura, traquinice.



De manha a habilidade há de tudo.
Até para ser louco parece necessário dominar a arte da loucura...


O saudoso Paredes torna-a meio de perceção de coisas extremanente complexa que os artistas tornam acessível.
Nunca tinha pensado desta forma.


A vida pode ser tudo, até uma arte.
Os poetas na sua arte com as palavras transformam-na em pensamentos ou versos deliciosos.


Mas, a vida não é só poesia.
Na maldade também a arte pode estar presente.
A Hipocrisia pode ser artistica, quem diria?


A nossa existência como obra de arte prima: eis a tarefa que nos cumpre cumprir.
Ousemos na perfeição da Obra!


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Aceitar


Tomar como nosso uma ideia, uma situação ou até uma pessoa.
Aceitar implica apropriação, tomar posse.

A mera Conformação não habita no mesmo prédio da Aceitação.
No Conformar a passividade e até a revolta podem morar.

Na casa do Aceitar há uma abertura de porta, uma ação consciente.
Nesta articulação do 'sim' passamos a ser mais, a ser diferentes.

Trata-se de processo incessante onde somos convidados a conjugar o verbo em todos os tempos, modos e pessoas.
O aceitar as concordâncias do outro pode ter influência no 'eu' e levar-nos (ou não) à admissão do, até então, impensável.
Aceita-se por conveniência, por amizade, por amor, por ódio, por convicção, por solidariedade . . . porque sim.
Basta assim o decidirmos.
Desta forma, à nossa vida vêm chegando novos quereres, sentires, desejos e até sofrimento porque aceitamos.

Constituindo a essência do Homem esta impermanência ( a mudança é a nossa principal constituinte), de igual forma se pode Rejeitar.
Proclamar o 'não' ao que nos surge, mais ou menos inesperadamente.
Poder-se-à apelidar de Liberdade, esta opção de escolha.
Há quem a considere bem supremo, símbolo da Humanidade.

E . . . no Rejeitar . . . mata-se o Aceitar!


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Com Culpa !

Ajeitava-se no sofá. Não encontrava posição confortável. Os pensamentos sucediam-se sem que os conseguisse travar. Impotente era a palavra indicada para a definir.
Sem querer excedera-se. Em nome do amor exigia o que lhe parecera razoável.
Contudo, as imposições mostraram-se contraproducentes. 
A mente desfazia-se na culpa que a torturava. 
Incapaz, exagerada, palavras que se atribuía.
Levantando-se de rompante, uma tontura fê-la vacilar. Tornou-se a sentar. A cara entre as mãos. As lágrimas salgavam-lhe os lábios no pequeno rio que se formava. 
Do centro daquele vulcão de sensações e palavras que se atropelavam no seu íntimo, uma certeza emergia.
De princípio disforme. Pouco a pouco foi tornando forma. 
Mudar, alterar já não era opção, mas sim necessidade. Sob pena de se sentir enlouquecer e arrastar consigo quem mais amava.
Com objectivo em mira o coração desacelerou-se-lhe. 
Primeiro teria de alcançar o auto controle. De seguida, voltar-se-ia para aquele cuja influência imensa lhe escapava. Desconhecia o verdadeiro alcance da sua ascendência. Pelos vistos, maior do que imaginava.
Respirou fundo uma e outra vez. Disposta a colocar o 'outro' no cume das suas prioridades, colou a palavra 'amor' nos seus gestos e dispôs-se a empreender nova tentativa.
Desta feita com a condição do carinho, da ternura como aliadas.
Não mais galgaria as suas próprias incapacidades para outrém, sem culpas das suas assombrações interiores.
Despojar-se-ia do que fosse necessário para arranjar espaço dentro de si. E desta forma poder ocupar-se, atestar-se de si. Pela positiva. Do que de melhor encontrasse na sua essência.
Para dar teria de ter.
Agarrando um pedaço de coragem, armou-se de vontades transfiguradas e preparou-se.
Esperavam-na.
Chegara o momento...


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

100 história ( s ) . . .


O passo apressado denunciava ansiedade. A escuridão pedia-lhe cautela, coisa imprestável neste momento.
Cair, tropeçar, nagoar-se fisicamente não era nada, comparado com os sentimentos que a torturavam.
Um sentido desconhecido guiava-a por onde onde os olhos não a podiam ajudar.
Necessitava, com urgência, de chegar ao destino. Determinada o receio não tinha lugar na sua companhia.
Avançando sem dar conta, vislumbrou o local combinado.
O banco da alameda já estava ocupado. Não a surpreendia. Sabia da pontualidade que lhe era característica. Ele gostava de se adiantar. Previdente, racional, metódico e prático demais para o seu gosto.
Afinal tinham sido estas peculiaridades que os tinham conduzido até ali.
Abrandou o passo. Ajeitou o cabelo. Retocou o 'gloss' por instinto. Inspirou e vestiu-se de si própria. Feminina, confiante.
Desta vez estava decidida. Ou a conversa a satisfaria ou o rumo seria outro, na certa.
Fartíssima de parcas palavras, de racionalidade comprovada, apenas queria letras juntas com o afeto como cúmplice.
Desejava emoção e bem explicada.
Ânsias de diálogo sem pontuação, conversa de olhos, enfim a dissecação daquela relação tinha de ser feita.
Precisava do detalhe, dos pequenos 'nada'. Enfim, de todas as 'inutilidades' como ele lhe chamava.
Continuar a viver da forma como ele queria estava fora de questão.
Necessitava de  esclarecimentos como do ar que lhe custava a tragar.
Naquele momento, o som da sua passada virou-lhe a cabeça.
Olhou-a, cumprimentando-a, e sorriu...

sábado, 15 de dezembro de 2012

Negro Profundo ( 23 )

De mãos dadas correm em direção à casa grande.
Na mesa já se encontra toda a família. Ao verem os cabelos desgrenhados e os rostos resplandecentes não houve dúvidas. O Amor era material. Podia-se palpar.
Matilde levanta-se e abraça a irmã/amiga dizendo que já sabia e estava muito feliz por ela.
O Srº Teles tentado pôr um pouco de decoro na situação tosse e o silêncio reinou por segundos.
'Afinal que se passa?' pergunta o pai epesar de adivinhar a resposta.
Luís corou ao cair na realidade. Tomou a dianteira e diante de todos declara: 'Srº Teles, estamos apaixonados. Amo Samara. Dá-me a sua permissão para...para... (e as palavras fugiam-lhe) namorar?'.
Não resistindo Teles dá uma garagalhada bem sonora, ao seu jeito de homem prático e acalma-o. 'Vem cá Luís e tu também Samara. É com enorme felicidade que vos vejo tão próximos. Claro que têm a minha benção. Agora sentem-se e vamos almoçar que estou faminto'.
O burburinho instala-se e a desordem imperou naquele animado almoço. Matilde beliscava a amiga querendo saber todos os detalhes. Os irmãos de Luís, que também se encontravam à mesa, olhavam incrédulos o irmão que sempre tinha sido considerado o rapaz das nuvens, o sonhador. Parece que tinha descido à Terra, disso não tinham dúvidas.
Luís e Samara trocavam olhares cúmplices.
Aquelas férias prometiam...
Após a refeição 'as crianças' juntaram-se para inquirir o recém casal, ou parzinho de namorados como já os batizara o pequeno António. Bem, pequeno ele não era. Homem já feito, mas visto ser o mais novo assim o tratavam carinhosamente.
Samara não largava a mão de Luís e este não se cansava de lhe dispensar atenção ora acariciando-lhe o cabelo ora depositando-lhe pequenos beijos onde podia e conseguia.
(continua)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Negro Profundo ( 22 )

Não fossem os braços e as mãos fortes de Luís e Samara desmaiaria mesmo ali. A constatação atordoara-a.
Luís preocupado, pega-lhe ao colo e senta-a no  banquinho debaixo da frondosa tília.
Refeita da certeza que a abalara, sorri-lhe. Afaga-lhe a cara e deixa-se beijar. Luís, em êxtase profundo, não querendo acreditar em tamanha felicidade, prova-lhe os lábios primeiro a medo. Depois, sente a vontade de Matilde e colam as bocas em ternura húmida. Repetem os carinhos  há tanto ansiados.
Em pausa de suspiros Luís atreve-se a declarar o seu amor. Sussura-lhe 'amo-te' ao mesmo tempo que lhe mordisca a orelha. Samara entrega-se e faz dele as suas palavras correspondendo de forma inequívoca.
Entrelaçados dirigem-se à zona favorita de Samara, um camarachão repleto de lindas trapadeiras e pintalgado de cores em flores de variadas formas.
Aproveitam o atapetado relvado e deliciam-se rolando na frescura progredindo em toques cada vez mais ousados e apetecidos.
Beijam-se,  olham-se, sentem-se e respiram-se.
O Mundo parou. Naqueles momentos existia uma entidade constituída por Samara e Luís. Em uníssono. Completa harmonia de corpo e almas.
Entregam-se na totalidade na certeza do seu amor e como culminar de quereres ignorados.
Nem dão pelo tempo.
Ouvem chamá-los.
Voltando à realidade, ajeitam-se sorrindo como crianças marotas e respondem que estão a ir.
 O almoço estava servido.
(continua)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Negro Profundo ( 21 )

A casa da herdade encheu-se de alegres sorrisos e esfuziante alegria com o regresso das meninas já mulheres.
Teles e a esposa não ocultavam o contentamento em voltarem à companhia das suas filhas. Claro  que Samara era uma filha, nunca o questionaram a partir do momento em que a acolheram nos seus frágeis dezasseis anos.
Os rapazes Tavares juntavam-se amiúde às raparigas e a algazarra não era passível de ser ignorada.
Samara, mais calma com a ausência de horários, começava a ouvir-se. Tinha adiado a 'arrumação' de sentimentos aguardando a serenidade suficiente para não tropeçar.
A vida tinha-lhe ensinado essa prudência e amadurecera-a talvez demasiado cedo.
Sabia que a família se encontrava acampada no local costumeiro, mas ninguém procurou. Adivinhava a inevitabilidade dos conflitos.
Por seu lado, Luís continuava a sua corte que não a deixava indiferente.
Naquela manhã radiosa, Samara ocupada em mimar a égua que lhe tinha sido ofertada no último Natal sentiu alguém que a agarrou por trás.
Mesmo não  virando a cara, reconheceu, de imediato o seu amigo bem disposto Luís.
O riso contagiante iluminou-lhe o rosto. Virou-se de frente para ele. Não lhe soltando a cintura, olha-a nos olhos  como só os apaixonados entendem. Samara retribui o olhar e naquele momento todas as dúvidas se dissiparam.
Era ele!
Sempre gostara dele e de que forma. Nunca o tinha admitido nem para si própria. 
Naquele instante soube-o duma forma que lhe retirava a força das pernas.
(continua)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Negro Profundo ( 20 )

Apesar da dor pela perda da mãe, Samara descobriu um contentamento inabitual em si. Voltara a embrenhar-se nos estudos, mas desta feita o Sol parecia sorrir-lhe. O exemplar aproveitamento escolar continuava. Contudo, acordava com uma boa disposição que a motivava.
Relembrava mais vezes do que desejava a mãe e toda a sua juventude conturbada.
No entanto, os telefonemas  de Luís deixavam-lhe o coração acelarado.
Em virtude dos irmãos Tavares se encontrarem todos a estudar em Lisbos bem como Matilde e Samara, os 'Cinco' da infância reuniam-se pelo menos uma vez por semana na cidade onde residiam no tempo de aulas, Lisboa. Era como o conforto e carinho de casa marcasse presença.
Haviam crescido juntos e sentiam-se família.
Matilde foi a primeira  a notar a alteração no relacionamento dos amigos. Sentia uma Samara mais envergonhada e um Luís, habitualmente grande sonhador, particularmente terreno e sempre preocupado com Samara.
Após a declaração de Luís, o comportamento de ambos tinha-se alterado como era de esperar.
Luís fragilizado, pela sua exposição, em tudo tentava cativar Samara. Esta deixava-se hipnotizar pelo seu amigo de sempre, porém a experiência conselhava-a prudência.
O ciclo académico acabou com aproveitamento e as pequenas férias serviriam para breve descanso e o retornar às Mimosas, lar sempre saudoso.
(continua)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Negro Profundo ( 19 )

A inesperada declaração emudece Samara. A sua tenacidade no estudo e na conquista da independência não lhe deixavam tempo para namoros. O casamento que recusara tinham-lhe deixado trauma.
Pura e simplesmente deixara de pensar em si como mulher completa onde o género masculino seria incluído.
Perante o olhar angustiado e expectante do amigo que lhe exigiam resposta, hesita.
Balbucia algo como uma justificação de nunca ter pensado no assunto. Assegura-lhe que o adora, mas desconhece se os sentimentos poderão ser de outro teor.
Afiança-lhe que se fosse obrigada a escolher ele seria, na certa a primeira opção.
Luís fica desiludido com a reação de Samara. A amizade deles sempre tinha sido especial e, pensara ele, evoluira da forma mais natural: para o amor.
Smara pede-lhe um tempo para se organizar. Muita coisa lhe tinha acontecido em tão pouco tempo. Suplica-lhe que tenha paciência com ela e acima de tudo que não se afaste.
Luís, um pouco envergonhado, desculpa-se e apenas lhe diz para levar o tempo que necessitar.
Regressam à casa principal e é altura de arrumar as roupas, os livros. No dia seguinte regressarão a Lisboa a fim de completarem o segundo semestre do terceiro ano.
Jantam na casa grande e reagem como habitualmente.
Fazem a viagem juntos e quando se despedem, sem que Luís se dê conta, Samara ao se aproximar dele oferece-lhe a boca em sinal de promessa.
E nas nuvens, regressam às suas residências com a esperança de futuro amoroso na bagagem.
(continua)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 18 )

Essa semana de luto conduziu a uma maior intimidade entre os dois amigos de infância.
A cumplicidade sempre tinha estado presente e conseguiam entender-se através de pequenos gestos involuntários, de olhares, enfim conheciam-se duma forma genuina e insubstituível.
Samara afastava os fantasmas que tinham regressado do seu passado: a rejeição da família, a intolerância que não conseguia perceber.
Por outro lado, o carinho com que era rodeada na familia adotiva ajudavam-na a superar pensamentos sombrios e liquidar qualquer assombração.
O jeito sonhador de Luís continuava a proporcionar-lhe momentos de riso. Desfazia-se em histórias de animais que nos íltimos anos povoavam o seu universo universitário no seio do Hospital Veterinário.
Tinham em comum o gosto pela vida, a saúde e trocavam conhecimentos.
Dentro em pouco seriam profissionais e ambos pretendiam regressar para a cidade perto das Mimosas onde esperavam poder ajudar, cada um na sua área.
Num dos passeios pelos campos coloridos, Luís traz a mão de Samara na sua como já era habitual.
Porém, desta vez, o rapaz pára e olha profundamente os olhos negros de Samara.
Esta até se asustou com o sério semblante. A brincadeira e o olhar alheado eram mais habituais na sua face.
Luís aproxima-se da face de Samara e deposita-lhe um leve beijo nos lábios.
Acrescenta: 'Sei que não é a melhor altura...mas, adoro-te, aliás, estou apaixonado por ti...queres ser minha namorada?'
(continua)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 17 )

Após o funeral da mãe, apenas a avó se lhe dirigiu aconselhando-a a continuar afastada da família.
Tinha sido escolha dela, não poderia reclamar. Um terno beijo depositado na sua testa denunciava um carinho inexistente nas palavras proferidas por Aurora.
Toma o caminho da casa principal das Mimosas agora seu lar.
Altura de exames do primeiro semestre. Do Grupo jovem da herdade apenas Luís tinha faltado para receber e consolar a amiga. Aconselha-a a vestir outra roupa.
O negro pesa-lhe a silhueta.
Completamente exausta, sonâmbula, anui e dirige-se ao seu quarto, de há cinco anos a esta parte, contíguo ao de Matilde.
Aproveita para tomar um duche, veste uma ligeira camisa de noite e deixa-se envolver pela escuridão proporcionada pelas portadas cerradas em plena tarde luminosa.
As últimas quarenta e oito horas tinham-se transformado num pesadelo. Custava-lhe conciliar o sono apesar do torpor a invadir.
Familiares e amigos desfilavam à sua frente como se a  um filme assistisse.
Contudo, as cenas tinham como pano de fundo o cenário onde vivera as últimas horas.
Debatendo-se com os fantasmas é finalmente vencida e adormece.
Desperta após vinte horas de sono initerrupto, por volta da hora de almoço do dia seguinte.
Lentamente, recolhe as lembranças recentes, sente-se invadir por melancolia companheira.
Levanta-se, e ao abrir a janela, os pais de Matilde acorrem a saber da sua menina.
Samara,, apesar da dor presente causada pela eterna ausência da figura materna e pela indiferença sentida pelos membros do seu clã biológico, consegue esboçar um sorriso e sussura um: 'Estou bem.'
Sózinha, olha para o Negro total qua a vestira na véspera e decide não tornar a usá-lo.
Retomaria a vestir a roupa escolhida por si nas lojas da cidade.
Sabendo que já estava acordada, Luís fez questão de aompanhar a refeição da amiga de infância.
Como já tinham perdido os exames poderiam usufruir da próxima semana de férias e desfrutar da companhia um do outro.
Depois, recomeçaria o segundo semestre e com a exigência do curso, seria de esperar que Samara voltasse ao nível a que habituara amigos, professores, colegas e a si mesma.
(continua)

sábado, 24 de novembro de 2012

Querido Diário...


Meu querido Diário,

Faz tanto tempo...já nem me recordo quando te escrevi pela última vez.
Sabes? Não tem sido por falta de tempo.
Nunca te cheguei a contar, mas alguém encontrou o meu 'caderninho' e fui castigada pelos sentimentos expostos. Há certas coisas que não conseguimos ou não podemos expressar na face de quem nos magoa.
Foi o caso.
A autoridade de mãe ficou beslicada pela minha irreverência nas confidências que te fiz.
Fui castigada por escrever sentires íntimos que à luz da distância parecem tão infantis. E eram-no realmente. Afinal mal tinha entrado na adolescência.
Pois bem! Senti-me violada e nunca mais te escrevi uma linha.
As palavras ditas podem ser esquecidas, reinventadas, argumentadas, distorcidas ou simplesmente ignoradas.
Agora a escrita é outra história. Constitui facto, prova de 'crime' e a interpretação tão subjectiva.
Por outro lado senti-me suja com o ocorrido e no alto da minha tenra idade a baixa auto estima não ajudou.
Passado já passou e nem sei porque me lembrei de ti.
A verdade é que aqui estou eu a dizer-te que já me aconteceram milhões de coisas, tropecei em muitas pessoas novas e 'eu' talvez já nem exista como me conheceste.
As conversas que tinha contigo acontecem agora no mundo dos meus pensamentos e são diálogos interiores.
Há pensares que não devem sair dentro de nós. Para o bem e para o pior.
Termino com carinho e saudade de tempos idos, de confiança pueril.
Saudades de mim, do projecto que poderia ter sido.

Até!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 16 )

Na actualidade, e com o romper do dia, as lembranças esvaneciam-se.
A dor da partida da mãe estrangulava-lhe a garganta. Aqueles últimos cinco anos tinham-na mudado. Conseguira estudar sempre com o apoio dos pais que a tinham adotado.
Estudava Medicina Dentária, concretização do sonho de criança.
Matilde enveredara pelas matérias da Biologia. João, gestor a finalizar o curso. Luís, que se tinha transformado no seu maior amigo e confidente, decidira ser médico de animais. Continuava a sonhar que iria salvar todos os seres vivos de maus tratos. O pequeno António, que se revelara um rapagão de ideias bem assentes, escolhera engenharia. Adora mecanismos, máquinas e desta forma saciava a sua curiosidade, estudando com prazer.
Matilde sentia-se bem apesar dos fantasmas da rejeição a assolarem de quando em vez.
A morte da mãe reavivava-lhe as assombrações.
A avó veio oferecer-lhe um chá quente. Samara, dormente da posição encaixada no corpo frio da mãe, desperta rápidamente.
Haviam chegado mais pessoas, o negro parecia a única cor existente.
Os homens trajavam integralmente o preto com o preto como adorno.
As mulheres escondiam-se nos seus lenços negros que lhes tapavam a cabeça descendo até à cintura.
Era o caso de Samara, respeitava os costumes e apresentava-se de negro profundo vestida.
O funeral seria dali a pouco.
Acariciando a gélida face da mãe, é depois desviada para o meio das outras mulheres.
O pai, Manolo, de sofrimento estampado no resto, recusa-se a olhá-la. Os seus irmãos solicitam-lhe atenção, de olhos ávidos.
Ainda vislumbra Gonçalo, já casado e com dois petizes pela mão.
Aurora, mulher experiente, avó amorosa convida-a a permanecer em silêncio para afastar distúrbios.
Samara cansada, tudo  cede. A dor experimentada não lhe ânimos para qualquer ação.
Apenas chora, lágrimas secas, dor lacinante.
No marasmo da insensibilidade, provocada pela tristeza, permite-se o embalo inconsciente  nas cerimónias costumeiras naquelas ocasiões.
(continua)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 15 )

Decorridos os dois anos a decisão era-lhe exigida. Sem rodeios, com vontade de despachar o assunto, pede audiência ao pai.
De rompante deixou que todos os sentimentos se lhe extravazassem.
O pai ouviu-a e sem possibilidade de apelo decretou: "Pois bem. Se é isso que queres, a partir de agora deixas de fazer parte desta família. Tens até ao final do dia para saires do acampamento."
Virou as costas, deixando uma Samara petrificada. A mãe começou os seus lamentos, agarrando-lhe as saias, pedindo-lhe que reconsiderasse a posição.
Aturdida, Samara pega nos seus parcos haveres, constituidos por livros e cadernos essencialmente. Dirige-se à casa grande.
O pai de Matilde encontrava-se no exterior, inspecionando um tractor que avariara. Ao vê-la percebeu que algo de grave e sério tinha ocorrido.
Semlhe pedir explicações, leva-a até à sala onde a põe à vontade. Quer saber onde pode ajudar.
Pela primeira vez Samara irrompe em pranto. Sem pressas o srº Teles deixa-a chorar até que a calma chegue.
A jovem inicia a narração contando o facto de ter recusado Gonçalo e as consequências que daí advieram. Tinha sido expulsa do acampamento da família. Desconhecia o que deveria fazer. Mas tinha uma certeza, nos seus desasseis anos, não casaria com Gonçalo. Nada de pessoal contra ele.
Apenas sonhava uma outra vida.
O srº Teles, entendendo-a e não querendo conflitos, assegura-lhe que aquela casa é dela também.
Só teria de esclarecer a situação com Manolo, pai defensor de tradições enraízadas.
Fê-lo de imediato e Samara passou a viver com Matilde, sua irmã do coração.
Lamentava ter-lhe sido vedado o contacto com os irmãos, o sobrinho e a mãe que sempre tinha estado de seu lado embora em silêncio. Sempre tinha sentido o seu amor.
(continua)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 14 )

Aqueles dois anos, apesar das rotinas habituais, foram desassossegados. Até perfazer desasseis anos continuou a estudar na companhia de Matilde e dos meninos da Herdade nos tempos mais frios do ano.
A pressão revelou uma Samara mais aplicada, com mais vontade de ser dona do seu medo. Apesar de todas as dificuldades era a melhor aluna. Os professores surpreendiam-se com tamanho empenho e trabalho.
Dedicando-se por inteiro à aprendizagem, encontrava conforto nas conversas e amizade dos companheiros de brincadeiras da Herdade das Mimosas, onde se sentia compreendida.
Gonçalo visitava-a semanalmente, possibilitando  um conhecimento maior do que pretendia ser seu marido.
Gostava dele, mas um fosso repleto de maneiras diferentes, opostas até, de encarar a vida, aumentava cada vez mais.
A identificação com as vidas e projetos de Matide e dos três irmãos Tavares crescia tanto quanto a sua maturidade. Integrava a família de Matilde e as vidas dos adultos das Mimosas eram-lhe referências.
Imaginava-se de poiso certo, vivendo em casa sólida, com emprego e depois, talvez, casando.
O noivado alargado tinha-lhe desperto o interesse pelo género masculino duma forma nova. Dava por si a discutir relações, sentimentos, com João, o mais ponderado e sensato. Contudo, era em Luís, o sonhador do grupo, que encontrava maior calmaria. Entendiam-se muito bem. Quase não necessitavam de articular palavras para se adivinharem.
Os olhos brilhantes de Luís transmitiam-lhe segurança, uma paz nova.
Inconscientemente começou a fazer comparações e, com o decorrer do tempo, o casamento com Gonçalo parecia-lhe uma realidade da qual não queria ser membro.
A liberdade chamava-a e esta não se encontrava no cumprimento de tradições e promessas impostas.
(continua)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Negro Profundo ( 13 )

Nada notando de estranho, apenas o habitual movimento que antecede a preparação da refeição, Samara dirige-se ao seu canto de estudo.
Uma mesa improvisada serve-lhe de escrivaninha. Acende a lamparina e prepara-se para fazer os deveres.
Sente uma presença aproximar-se. Engana-se, são duas: a de seu pai e a de Gonçalo, o noivo a quem estava prometida.
O coração acelera-se. O pai adianta-se e pede-lhe que se  dirija à zona de convívio.
Samara ajeita os cabelos encaracolados e escondendo a nervoseira veste um porte seguro, quase altivo.
Gonçalo, ao vê-la aproximar-se, fica arrebatado. Conhecia Samara desde criança, por várias ocasiões tinham estado juntos. Esta menina-mulher em que se transformara seduzia-o. Quando chegara a altura de escolher companheira para a vida não hesitara, imaginando-se únicamente com Samara.
Após os cumprimentos iniciais o pai pede-lhe explicações.
Samara, calmamente, mostra a sua posição, declarando-se demasiado nova para casar. Nada tendo contra Gonçalo, pelo contrário, achando-o um rapaz atraente e bem formado, gostava de continuar a estudar e deixar as ideias de casamento para mais tarde.
Sem interferir no diálogo dos jovens, Manolo segue atentamente a conversa.
O 'noivo rejeitado' entende as razões da menina.
Propõe um acordo. Visto ela ter apenas catorze anos, contra os dezasseis dele, adiariam dois anos, tempo em que haveria espaço para se conhecerem melhor e concretizarem o que se propunham.
À falta de melhor, Samara concorda com o diferimento.
Teria o aliado 'Tempo' como conselheiro.
Logo se veria.
(continua)

P.S. Peço desculpa às amigas(os) pela demora na publicação de novos capítulos desta 'novela' sem classificação. As tramas da realidade podem ser mais enleadas do que as  ficcionadas. De qualquer das formas, tenho como característica 'acabar obra iniciada'.
Nada prometo, vamos ver, como tão bem pensa Samara...