segunda-feira, 18 de junho de 2012

Negro Profundo - 1 -

As lágrimas teimavam em ficar presas no mar em que se transformaram os seus olhos negros. Semicerrando as pálpebras, sentia aquele molhado que teimava em não vazar.
Levou as mãos aos cantos dos olhos e as gotas salgadas soltaram-se, livremente, escorrendo pela sua cara de mulher menina. Era jovem, muito jovem, contudo os sinais das vicissitudes dos revés da vida tinham-lhe marcado a face, com expressão de indiferença.
As contrariedades, tão suas conhecidas. Demasiado íntimas. Desejaria que pelo menos um dos seus sonhos se concretizasse. Já tinha perdido a esperança. Debatia-se num quotidiano, escolhido por si, que não a satisfazia. Um aprovação seria um alento necessário, mas tardava em vir. Já se conformara, há coisas que, pura e simplesmente, não controlamos. Logo, não poderemos contar com elas no dia a dia. Uma lição de vida aprendida desde tenra idade. Sempre tinha sido assim! Porém, sombras de esperança e vislumbres de outras realidades ainda a assombravam.
A sua dimensão fantasiosa, chama ardendo, com pavio curto e azeite no fundo do recipiente, a ser consumido nas suas últimas gotas. Já não tinha recursos para voltar a encher nova candeia de ilusões. Recusava-se, conformando-se num incómodo que teria de fazer amigo.
O barulho dos seus chinelos, no passeio deserto, ecoava nas suas entranhas e relembrava-lhe a infância.
Voltara a vestir as saias compridas, e por obrigação das circunstâncias, tapava os seus longos cabelos, entraçados, com um lenço fúnebre que lhe chegava à cintura de mulher. 
De negro eram as suas vestes,  a tradição assim regulamentava. Dum negrume de fazer inveja às noites mais sombrias, mesmo as de Lua Nova. Estas ainda se alegravam com as estrelas distantes. Nela, o único brilho provinha do seu olhar...
Contemplando  a noite fria, apressava o passo, a dor servia-lhe de motor e as recordações de companhia, na jornada.
(continua)

12 comentários:

Margarida Alegria disse...

O texto está lindíssimo e adivinha-se mais uma das tuas crónicas empolgantes.
Está promissor!
E será que ... é sobre...?
Excelente arranque. :)
Beijos!!!

edumanes disse...

Uma lição de vida aprendida
O barulho dos chinelos na calçada
Uma lágrima dos olhos caída
Nas pedras da rua ficava!

Salgadas como a água do mar
Enchiam recipiente de ilusões
Estrelas distantes iluminar
As mais belas recordações!

Desejo uma boa noite, e continuação de ótima semana para você, Adorei, muito lindos "seus olhos negros"
um beijo
Eduardo.

Vic disse...

Ah! Voltamos ao conto mais extenso. Gosto da tua escrita, Pérola. Fico à espera :=

Margarida Costa disse...

Acho que devias escrever um livro de poesias! :)

manuela barroso disse...

Um lindo texto, deixando antever uma excelente narrativa com descrições belas, poéticas.
Abraço

aflores disse...

Um interessante jogo de palavras e sentimentos, numa recordação aqui partilhada.
Vou estar atento no seguimento.

Tudo de bom.
;):)

Opinante disse...

Tu és craque na escrita :D

mfc disse...

Um texto descritivo em que é feito um retrato indicador de uma infelicidade latente que se irá desenvolver nos próximos escritos...
Um retrato feito com saber e profundidade.
Cá estaremos para os ler!
Beijinhos,

Arco Iris disse...

Pérola fico fascinada com a tua escrita, é muito bom têr essa capacidade de as palavras fluirem com tanta imaginação.
Fico à espera do próximo capítulo.
Bjs :))

Tétisq disse...

Tão lindo! Todos os sentimentos velados. Adorei*****

Mona Lisa disse...

Uma história comovente/negra (como as suas vestes( de alguém que "desesperadamente" procura a felicidade , quase perdendo a esperança...

Um texto que me tocou.

Espero ansiosa.

Beijos.

Ana Martins disse...

Pérola, boa noite!
Por este texto de prosa poética lindamente escrito, antevejo outra crónica empolgante para eu seguir.

Beijinho,
Ana Martins