quarta-feira, 20 de junho de 2012

Negro Profundo ( 3 )

À medida que se aproximava do oásis de luzes, ouvia, cada vez mais distintamente, os lamentos, os choros entrecortados com silêncios que se anteviam tristes, depressivos. A fogueira centrava a família alargada a que se tinham juntado familiares mais distantes.
Conhecia-os todos pelo nome. Trajavam negro, sinal da escuridão em seus corações, originada pelo sofrimento da perda. Exceção feita aos mais pequenos, apontamentos coloridos, que já dormitavam nos colos de suas mães ou espalhados pelo amparo dos irmãos mais velhos.
Os olhos voltaram-se para ela à medida que a luz o permitia. Instalado o silêncio embaraçoso, com as mãos torcendo o lenço, apenas conseguiu gemer uma boa noite. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A vontade ordenava-lhe que corresse dali,  se refugiasse no lar acolhedor que a aguardava. Não podia! Teria de se munir de todas as suas forças e enfrentar os factos. Não lhe poderia fugir. Não desta vez.
O tio-avô, Valter,  pela autoridade que lhe dava a sua idade, questiona-a, humilhando-a - 'Que queres daqui? Já não pertences a esta família. Vai-te daqui, não és bem vinda! És uma estranha e só à familia é permitido chorar a morta'.
Samara de boa vontade teria dado meia volta, mas os sentimentos falavam-lhe mais alto.
'Não venho semear guerras, muito menos incomodar-vos. Quero, tão somente despedir-me de minha mãe e poder chorar a sua morte, perto dela'- dispara duma vez a menina mulher, endurecida no lombo da vida que costumava cavalgar. 
Ambiente que se espessou com o diálogo repleto de raivas, de incompreensões, de ódios, de raivas.
Insistiu, aproveitando o silêncio sepulcral: 'Só quero chorar minha mãe', soluçava compulsivamente. Um redopio de pensamentos não a largavam e sentia-se desfalecer. Tentou manter a postura e aguardar um sinal de recetividade. O corpo pregou-lhe a partida e acabou por cair, tendo as folhas já amareladas por colchão. Desmaiou, causando consternação, principalmente no flanco feminino. A sua tia avó, Aurora, mulher de muitos invernos, toma a iniciativa, grita que lhe cheguem a água e aproxima-se de Samara inconsciente.
Com o insólito da situação, ninguém se move, quais estátuas paradas no tempo. Aurora faz vencer a sua autoridade, dá nova ordem de 'água' e logo aparecem vários tipos de recipientes com o liquido.
(continua)

7 comentários:

Margarida Costa disse...

Minha amiga, passo com um beijinho e muitos sorrisos para ti! Beijoca

P.S. O texto? Maravilhoso como sempre!

Vic disse...

Samara é um nome estranho...

Tétisq disse...

Eu por acaso acho (S)amar-a um nome bonito|*

Ana Martins disse...

Pérola, boa noite!
Penso que Samara será de etnia cigana e que terá questionado e quebrado as regras da sua raça, por isso é indesejada.
Estou certa?

Estou a adorar, amiga, escreves muito bem!

Beijinho,
Ana Martins

D.N. disse...

Esta Samara ainda vai dar muito que falar :)
beijinhos

Margarida Alegria disse...

Está a ficar cada vez mais empolgante!
Também gosto do nome Samara.
Continua. Isto promete...
Um beijo

Mona Lisa disse...

Admiro a atitude de Samara ao não misturar sentimentos, mesmo magoada pelos familiares.

Beijos.